Profecia e comunidade religiosa
09.02.2010P. José Ornelas Carvalho, scj
Introdução
Na reflexão sobre o carácter profético da Vida Religiosa não poderia faltar um capítulo dedicado à dimensão comunitária e ao seu papel central na afirmação da autenticidade da nossa adesão a Cristo e da nossa missão. De facto, pela sua origem, natureza e organização, a Vida Religiosa é uma realidade comunitária e é como tal que actua na Igreja e na sociedade.
Não pretendo apresentar um estudo sobre a profecia ou sobre a comunidade, mas centrar-me unicamente na relação entre profecia e comunhão fraterna, quer no seu papel no interior da Vida Religiosa, quer como testemunho para com a Igreja e o mundo.
Procurarei iluminar a reflexão com a luz da Palavra de Deus, a partir da presença do Espírito de profecia nas primeiras comunidades cristãs, de modo a observar como este mesmo Espírito continua a estar presente e activo no meio de nós, como fundamento da alegria e da esperança que devem caracterizar o nosso testemunho.
1. À escuta do Espírito
No judaísmo do tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, a profecia era considerada como uma característica dos tempos passados, que tinha deixado uma marca indelével nas Escrituras que continuavam a alimentar a vida do povo. Considerava-se, porém, que o Espírito de Deus, ligado à profecia, se tinha apagado com a morte dos últimos profetas. A palavra escrita e oral transmitida pelo passado constituía a base da oração, da reflexão e da moral. Um midrash sobre Ecli 12,6 afirma: “ O último templo tinha cinco coisas a menos que o primeiro: o fogo do céu, a arca da aliança, os urim e tumim, o óleo da unção e o Espírito Santo” ( h. strack – p. billerbeck , Kommentar zum Neuen Testament , II, 133). Neste contexto, é evidente que os papéis fundamentais para a comunidade crente eram aqueles que permitiam guardar, interpretar e aplicar a lei já assente e intocável.
Por outro lado, ao lado e dentro da comunidade institucionalizada que vivia da Lei, continuava viva uma outra perspectiva, baseada sobre os textos dos profetas, que entrevia, anunciava e, de certo modo, antecipava um futuro diferente e renovado, a partir da presença dos Espírito de profecia . Veja-se, por exemplo, a força renovadora do Espírito de Deus que robustece o ramo saído do tronco de Jessé (Is. 11,1-2), que restitui a vida aos ossos ressequidos através da palavra de Ezequiel (Ez. 37,9-10), ou um coração novo a todo o povo (Ez. 36,26s). Particularmente significativo é o texto de Joel (3,1-2) que anuncia o dom do Espírito a todo o povo fiel: “ Depois disto, acontecerá que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne: os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão. Os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões” . Um comentário judeu da época neo-testamentária a este texto exprime ainda a perspectiva futura do dom da profecia: “Deus disse: neste mundo, somente alguns profetizaram, mas no mundo futuro, todos os israelitas serão profetas” ( h. strack – p. billerbeck , Kommentar zum Neuen Testament , II, 134) .
Jesus e a tradição cristã partem desta projecção futura da profecia, interpretando os novos tempos como realização do anúncio feito aos pais. Especialmente o anúncio de João Baptista, a cena do baptismo e a auto-apresentação na sinagoga de Nazaré apresentam Jesus como Aquele que vem levar à plenitude – e não simplesmente “cumprir” – as profecias do passado. De facto, a palavra, as obras e toda a vida de Jesus fazem compreender que Ele não é simplesmente mais um profeta, mas O Profeta prometido, que conhece o Pai e fala d’Ele de forma única, como diz a Carta aos Hebreus: “Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho” (Heb 1,1-2).
Mas Jesus não é somente Aquele que fala e age na plenitude do Espírito. Como Filho, tem o poder de comunicar a vida do Pai , o seu Espírito, como anuncia o Baptista: “Eu vos baptizarei em água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo” (Mc 1,8). O próprio Jesus, sobretudo na tradição de Lucas e de João, dirige o olhar dos discípulos para uma meta futura caracterizada pelo dom do Espírito à sua comunidade. “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Act 1,8; cf. Lc 24,49; Jo 14,15ss; 16,5ss). Por isso, a missão de Jesus atinge o seu ponto culminante no Pentecostes, visto que é através do dom do Espírito que ela se torna eficaz e perene.
Como decorre dos primeiros discursos dos Actos dos Apóstolos, a existência da comunidade, no seio da qual se manifesta o Espírito, constitui o ponto central desta nova realidade. Essa funda uma nova forma de ler a tradição do passado que agora se realiza, afirma a validade do Evangelho de Jesus e lança os fundamentos do anúncio dos novos tempos que começam a desabrochar. Assim como Jesus na sinagoga de Nazaré tinha afirmado: “ Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura” (Lc 4,21), do mesmo modo, no discurso de Pentecostes, Pedro pode afirmar: “ Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel …” (Act 2,16).
A presença do Espírito é a característica dominante do livro do Actos. Não somente os apóstolos, mas toda a comunidade é constantemente unificada, guiada, vivificada pela presença do Espírito de Jesus . Os dons do Espírito estendem-se a todos e não são característica de um elemento sozinho da comunidade. A profecia é enquadrada num conjunto mais orgânico e diversificado de outros dons, como a palavra, a misericórdia e a solidariedade e a direcção e governo, que contribuem para o crescimento da comunidade e o anúncio do Senhor ressuscitado (cf. Rom 12,3-8; 1Cor 12).
Como dom específico, no conjunto dos outros dons, a profecia distingue-se como palavra inspirada pelo Espírito para as situações em que vive a comunidade . Ela distingue o valor do momento actual, sugere soluções concretas, repreende e exorta os irmãos e lança o olhar sobre os caminhos do futuro (cf. 1Cor 14,3-5.24; Act 11, 27s; 13,1-3; 15,32). Trata-se ordinariamente de uma leitura da realidade eclesial à luz do Espírito, normalmente num contexto de oração comum. Há, além disso, a consciência de que o dom profético se destina à comunidade e é a comunidade que o aceita e lhe dá valor, seja pelo discernimento, seja pela aceitação. Por isso, Paulo recomenda que não se anule a profecia, mas que se examine na comunidade, para que seja segundo a fé e sirva para a edificação comum (cf. 1Cor 14,29.32.37; 1Tes 5,20s).
Os textos neo-testamentários não atribuem a nenhuma personagem uma autoridade semelhante aos profetas da primeira aliança. O ponto de referência absoluto é a pessoa, a palavra e a obra de Jesus morto e ressuscitado. Aqueles que falam sob a acção do Espírito não fazem senão dar testemunho (martyria) de Jesus e do seu Evangelho.
Este Espírito não é característica somente das primeiras comunidades cristãs. Nunca se apagou, mas está continuamente em acção na Igreja, suscitando pessoas, movimentos e instituições que a renovam, aconselham e orientam. A Vida Religiosa constitui, sem dúvida, uma destas fecundas manifestações da presença do Espírito na comunidade eclesial ao longo dos séculos. Movidos pelo Espírito, numerosos fundadores/fundadoras colocaram-se à escuta daquilo que o Senhor diz em cada tempo à sua Igreja e responderam com generosidade e fraternidade, fundando comunidades de discípulos e discípulas, que deram frutos abundantes de testemunho evangélico, na renovação da Igreja, no aprofundamento do mistério cristão e na solicitude para com os mais pobres e necessitados, no anúncio do Evangelho em todo o mundo.
E hoje? Devemos viver simplesmente contemplando e narrando nostalgicamente os acontecimentos gloriosos do passado, como os ambientes legalistas do judaísmo do tempo de Jesus? Não deveríamos prestar ouvidos à mensagem do profeta do exílio que convidava os seus concidadãos a deixar de andar voltados para trás e a tomar consciência que Deus estava operando novas coisas nos seus dias (cf. Is 43,18s)? Serão os nossos tempos mais difíceis dos que viveram os nossos fundadores e as multidões de consagrados ao longo dos séculos? O Espírito de Deus terá talvez perdido a força? Ou a nossa sociedade será pior que as gerações que a precederam? E se fosse assim, não seria este um motivo a mais para um ulterior empenho de testemunho evangélico e um espaço para afirmar a dimensão profética do Evangelho?
Porque, então se ouvem tantos discursos derrotistas e desanimados sobre a Vida Religiosa e a Igreja? Porventura porque diminuímos em número? Mas quando é que Jesus mediu o sucesso da sua missão em termos numéricos? Não chamou, acaso, os seus de “ pequeno rebanho” (Lc. 12,32) e não anunciou o Reino como uma semente? O Senhor não nos quererá porventura conduzir pelo caminho da purificação das nossas grandezas, para redescobrirmos a força do seu Espírito no meio de nós, da fraternidade que nos une, da condição de irmãos e de servos e não de senhores?
Este é o tempo que nos é dado viver. Tem as suas características positivas e muitas outras negativas, que justamente põem em causa tantas coisas velhas do passado, mas que arriscam também de deitar fora valores imprescindíveis para a construção do futuro. Não creio que a sociedade do tempo de Jesus, das primeiras comunidades cristãs ou dos nossos fundadores fossem muito melhores! Vivemos num tempo de mudanças rápidas, onde é difícil ambientarmo-nos, adaptarmo-nos, discernirmos o sentido das coisas. Como Igreja e como consagrados, fazemos parte deste mundo. Não estamos aqui nem para condená-lo, nem para fugir dele, fechando-nos nos nossos conventos, mas para ser sinais da luz e da esperança de Cristo.
A Vida Religiosa não foi inventada hoje, mas nem sequer é apenas um legado do passado para conservar cuidadosamente intacto. Para ser profecia, isto é anúncio e transparência do Senhor Jesus, ela deve estar constantemente à escuta daquilo que o Espírito diz e faz. Como para a Igreja apostólica e para o próprio Jesus, a tradição do passado reveste-se de grande importância, porque o passado explica e dá sentido ao presente. Mas hoje o Espírito continua vivo e actuante no meio de nós e guia-nos na busca de novos caminhos de fidelidade e de serviço.
Como aqueles que nos precederam, temos necessidade, antes de mais, de tomarmos consciência de que não estamos sós . Fomos ou não chamados por Deus para o Seu serviço? E Ele ter-nos-ia chamado a uma empresa destinada à falência? Ou ter-nos-ia abandonado nas nossas dificuldades? Como aos discípulos no barco sobre o mar em tempestade, Ele dirige-nos palavras de censura e de segurança: “Porque sois tão tímidos? Como? Não tendes fé?” (Mc 4,40).
Não, o Senhor não nos abandonou e não nos abandonará nunca, porque é fiel mesmo quando nós somos infiéis. Mas pode ser que, como sucedeu com os discípulos de Emaús (Lc 24), Ele caminhe a nosso lado, sem que nós O reconheçamos, porque estamos demasiado ocupados a chorar sobre as nossas decepções. É preciso então aceitar voltar a fazer com Ele o percurso das Escrituras, deixar que o coração nos arda na escuta, perguntar para encontrar as respostas e compreender os caminhos de Deus. Mas, sobretudo, temos necessidade de desenvolver o sentido acolhedor e fraterno para O convidar e dar-Lhe espaço e tempo nas nossas casas, nas nossas comunidades. Então Ele partirá para nós o seu pão, que nos une e dá nova força para caminhar, mesmo durante a noite, e ir ao encontro, em Jerusalém, da grande comunidade eclesial. Aí, escutaremos a solene proclamação dos apóstolos: “O Senhor ressuscitou!” . E este anúncio da fé será novamente exemplificado e corroborado pelo relato que faremos à Igreja das nossas experiências de drama e de sofrimento, ao longo das estradas do mundo, mas também da solicitude com que o Senhor veio ao nosso encontro nas nossas dúvidas, nos abriu os olhos e partiu para nós o pão da alegria, da força e da esperança, que continuamos a levar para o mundo.
Esta é a primeira dimensão da profecia na vida consagrada: Escutar o Espírito do Senhor ressuscitado. É a primeira dimensão porque, sem a escuta de Deus, não se pode falar em nome de Deus, não haverá profecia, não haverá nem sequer vida consagrada. Mas é também a primeira dimensão porque esta escuta é já profecia, na medida em que afirma a unicidade e a prioridade de Deus sobre tudo o mais.
Falo de escuta e não simplesmente de orações ou devoções. Justamente a vida consagrada regulou o dia-a-dia dos seus membros com chamadas constantes a Deus, orientando para Ele toda a jornada. Mas pode-se correr também o risco de pensar que, por rezar muitas orações, seremos ouvidos (cf. Mt 6,7). Às vezes pergunto-me (também olhando para mim mesmo) como é que pessoas que fazem tantas orações e funções litúrgicas não se tornam verdadeiramente mulheres e homens de Deus. Penso que o motivo fundamental seja que “o tempo de antena” que concedemos a Deus, ocupamo-lo quase exclusivamente connosco mesmos. Falamos, falamos, dizemos salmos e terços (tudo coisas boas, se feitas no Espírito)… e Ele, quando terá oportunidade de nos dizer alguma coisa? O Profeta é sobretudo, e antes de tudo, aquele que escuta Deus, segundo a experiência do profeta do exílio: “Cada manhã Ele desperta os meus ouvidos para que seu escute como discípulo” (Is 50,4).
Esta profecia pode ser promovida? Pode ser apreendida? Pode fazer-se um programa de desenvolvimento profético das nossas comunidades? Não é ela um dom livre do Espírito, que o concede como e a quem quiser? Paulo diz que se deve ao menos desejá-la (1Cor 14,1). É evidente que a profecia é um dom do Espírito que só se pode pedir e aceitar com alegria e humildade. Ma ela faz, também, o caminho da incarnação: torna-se uma palavra, um gesto, uma disposição, uma vida. O Espírito fala, mas, para que haja comunicação, é preciso que haja alguém que O oiça. E isto podemos e devemos fazê-lo nós. Os profetas da Bíblia demonstram ser pessoas formadas na intimidade de Deus, que puseram ao serviço da palavra e do seu testemunho todos os conhecimentos e recursos que podiam encontrar. Os discípulos de Emaús fizeram o caminho da Escritura para reconhecer o Senhor e tornar-se anunciadores da ressurreição. A profecia é um dom precioso do Espírito: merece ser acolhida com gratidão e recolhimento, reflectida com inteligência e comunicada com eficiência de meios, sobretudo do amor que está na sua origem, para que possa dar o seu fruto.
Não duvido que o Espírito fala à Igreja e concretamente à vida consagrada, nos nossos dias, como falou no passado. A questão é saber se o escutamos, para poder viver/falar segundo a sua voz. Organizar as nossas comunidades de modo a serem lugares de escuta de Deus e, portanto, centros reveladores da sua presença transformadora, é o princípio do seu valor profético.
2. A profecia e a comunidade profética
A adesão a Cristo e à Vida Religiosa é, antes de mais, uma decisão individual, como resposta a uma chamada pessoal de Deus, mas concretiza-se sempre no contexto de uma comunidade. Desde o início do Evangelho, de facto, ao convite feito aos pescadores, nas margens do lago da Galileia, segue-se a formação de um grupo de discípulos, que partilham com o Mestre a vida, os recursos e o lugar onde vive, age e comunica o Espírito, A partir daqui, a adesão a Jesus ressuscitado far-se-á pela entrada na sua comunidade.
Na Igreja, e particularmente na Vida Religiosa, a comunhão fraterna torna-se, portanto, elemento central da fidelidade a Cristo e da missão . Não há verdade, nem credibilidade numa consagração ou numa espiritualidade que não se tornem comunhão fraterna. A fraternidade em si mesma torna-se a primeira realização do Reino de Deus, testemunho e presença sacramental do Senhor ressuscitado e sinal profético da nova humanidade gerada pelo Espírito.
Para a edificação deste projecto, não basta ter as nossas regras e lançar mão aos meios técnicos mais modernos (mesmo se são necessários e úteis), mas é preciso criar, na comunidade o ambiente de escuta do Espírito de que falávamos acima. A comunidade religiosa não se fundamenta sobre a afinidade familiar, nacional ou cultural, mas sobre o ter sido chamados juntos por Deus, sobre o estar unidos à escuta do mesmo Mestre e convidados solidariamente para a missão. É muito importante para nós sermos capazes de olhar-nos e ouvir-nos reciprocamente, mas, antes de tudo, é fundamental olhar e escutar juntos Aquele que chamou cada um de nós e que estabelece os critérios da nossa vida em comum e da missão comum.
Promover a escuta do Espírito significa criar na comunidade espaço e liberdade de partilha fraterna à sombra da palavra de Deus. Então, o Espírito suscitará sempre a voz profética de irmãos e irmãs que lerão de modo novo as Escrituras, o carisma do fundador, as nossas regras e tradições, sugerindo caminhos e propostas para renovar a nossa vida e missão, tendo em conta as rápidas transformações do nosso mundo. Uma organização comunitária de escuta e de participação corresponsável, em clima de respeito e de diálogo, é condição fundamental para quem pretenda procurar verdadeiramente a vontade de Deus. Assim, a fraternidade gerada pelo Espírito poderá tornar-se fonte de constante actualização, de renovação das nossas estruturas e de nova sensibilidade para responder, com critérios evangélicos, aos apelos das situações onde nos encontramos a servir o Reino de Deus.
A profecia encontra-se sempre ao serviço dos outros. A escuta que a torna possível tem dois pólos: Deus e a realidade concreta da comunidade e do mundo. É nesta bipolaridade que se realiza a mediação profética. No contacto com Deus, o profeta aprende a ver o mundo com olhos novos, tornando-se capaz de exprimir, por palavras e gestos, o cuidado de Deus para com ele. Por isso, uma comunidade profética tem necessidade de estar aberta ao mundo que a rodeia , em atitude de escuta, de diálogo, de discernimento e de solidariedade. Para uma comunidade religiosa é tão importante o espaço de silêncio e de comunhão interna, quanto a abertura à Igreja e à sociedade, onde é chamada a levar a palavra escutada, como semente de solidariedade e de esperança.
Mas, vivendo em comunidades sempre imperfeitas , é inevitável que a procura de fidelidade ao Espírito se faça no meio de multiplicidade de visões, tensões e equívocos, mesmo admitindo que todos os intervenientes estejam animados pelas melhores intenções. Cada um escuta o Espírito de modo pessoal e isto tem a grande vantagem de valorizar as suas capacidades e os seus dons. Mas tem também os seus limites, porque nenhum de nós é inteiramente transparente ao impulso do Espírito. As suas sugestões estarão sempre misturadas com a nossa visão própria, com os liames do nosso conhecimento, com a nossa cultura, os nossos limites e os nossos pecados. Por isso, a profecia deve ser integrada no conjunto dos outros dons e funções que estão ao serviço da comunidade. A convicção do profeta tornar-se-á então uma verdade partilhada, uma reforma ou um projecto corresponsavelmente assumido, um caminho que renova a comunidade.
O profeta é humilde, sem perder as convicções e a força daquilo que propõe: se tiver uma palavra que crê proceder do Espírito, deve submetê-la ao discernimento dos outros, como diz Paulo (1Cor 14,32), porque só assim se manifesta a sua liberdade na procura da vontade de Deus e só assim a profecia estará verdadeiramente ao serviço da edificação da comunidade. O profeta sabe que, a longo termo, a força da razão é mais forte que a razão da força e que a revolução evangélica nunca se impõe com a violência dos argumentos ou dos meios, mas deve ter o tempo de germinar no coração dos irmãos e irmãs. Jesus nunca viu sobre esta terra o Reino que anunciou. Teve, sim, a alegria e a confiança de vislumbrar, pela fé no Pai, os sinais do desenvolvimento da semente que lançava no coração dos discípulos e, sobretudo, deu por eles a vida.
Por isso, a profecia deve ser capaz de aceitar com fé e esperança a tensão, o conflito e o pecado, sem desânimo por falta de resultados, mas também sem o recurso à ruptura ou à violência para consegui-los. Quantos irmãos e irmãs abandonaram os projectos de transformação da comunidade, desanimaram e muitas vezes deixaram tudo, argumentando que não foram compreendidos, que a comunidade não funcionava, que a Igreja estava fechada à transformação! E tudo isto é, muitas vezes, verdadeiro. A Igreja e a Vida Religiosa não são realidades perfeitas, mas sempre em construção. A verdadeira profecia, por seu lado, não é o resultado daquilo que já existe, mas força do Espírito para construir as novas realidades. Ela torna-se então particularmente importante e necessária lá onde há crise, dúvida, litígio e infidelidade. Na Vida Religiosa, na Igreja e no mundo, temos necessidade destes profetas (e eles existem!): gente que escuta o Espírito e vê com clareza; gente que fala e procede segundo o projecto do mundo novo que Deus fez germinar no seu coração; gente que não se deixa enredar na mediocridade só para não ter problemas ou não causar tensões, mas também não desanima por não ver os resultados daquilo que semeou; gente que sabe que, embora o profeta se deva semear e desaparecer no terreno onde lançou a semente, Deus dará vida e futuro a um e a outra.
E, sobretudo, o profeta compreende, como Paulo, que a meta e o ponto culminante da profecia é o amor ( cf. 1Cor 13; Rom 12,9-21). O binómio profecia-amor é importante no discernimento da verdadeira profecia e na construção da comunidade. Por um lado, o amor da profecia faz com que a fraternidade se construa sobre a verdade e a fidelidade ao Espírito, e não sobre um simples jogo de conveniências e cumplicidades tendentes a evitar conflitos e tensões. A consequência desta postura seria a mediocridade e a destruição dos pressupostos da própria comunidade. Por outro lado, a profecia do amor faz compreender que a verdadeira profecia, que tem a sua origem no Espírito, não pode ter outra motivação, outros meios e outra finalidade que não seja o amor.
3. Profecia e serviço da autoridade
Na construção da comunidade, a profecia é chamada a ter uma função preeminente, em ligação com outros dons e serviços que são igualmente suscitados pelo Espírito. Entre estes encontra-se o serviço da autoridade ou de coordenação.
Muitas vezes, por influência da mentalidade socio-política, somos tentados a conceber a autoridade e a profecia como opostos e antagonistas , representando um a estabilidade institucional e o outro a novidade criadora. Hoje, este modelo não pode funcionar, nem sequer em nenhuma empresa que queira ter sucesso. Uma direcção que não permita ser posta em discussão, ser fecundada e renovada pelos outros membros, está condenada ao envelhecimento e à ineficácia. Por outro lado, um grupo que não esteja a altura de gerar mecanismos de coordenação e decisão não será capaz de manter-se e de progredir.
Coerentemente com o que dissemos até aqui, a primeira função da autoridade é a de promover a manifestação e a escuta do Espírito na comunidade. Só depois virá o de discernir, coordenar e complementar as suas sugestões. Um modelo de autoridade preocupada, sobretudo, em manter a ordem e a observância, não deixando espaço para a intervenção e participação corresponsável dos irmãos, não só resulta traumatizante e ineficaz, mas, antes, converte-se em factor de infidelidade e de obstáculo à voz de Deus. Quem não acredita na presença de Deus na comunidade procurará somente controlar e administrar; quem, pelo contrário, acredita que o Espírito está vivo e intervém, preocupa-se, sobretudo, em ouvi-l’O. Por isso, é importante que aqueles que exercem este serviço sejam os primeiros a colocar-se à escuta do Espírito. Assim encontrar-se-ão fraternamente solidários com os outros e saberão reconhecer a voz do Espírito que fala por meio deles.
Uma consequência deste procedimento é a preocupação de dar espaço à expressão das qualidades e capacidades de cada um. Só assim a riqueza dos dons do Espírito poderá ser posta ao serviço de todos e da missão da comunidade. Aquele que preside não deve considerar-se como um domador de leões, mas como irmão mais velho, que procura conhecer e animar o desenvolvimento de cada membro da própria comunidade, orientando-o para o projecto comum. Significa reconhecer e respeitar as outras funções e dons do Espírito que existem na comunidade, criando confiança e corresponsabilidade, no serviço do bem comum e da missão.
Em vez de ser oposição à profecia, o serviço da autoridade torna-se lugar de manifestação profética. A quem preside compete ser expressão do Senhor ressuscitado como Bom Pastor, que conhece as Suas ovelhas, tem cuidado delas e oferece por elas a própria vida (cf. Jo 10). Nos diferentes serviços aos irmãos, com gestos e palavras de acolhimento, de atenção, de cuidado e de orientação, actualiza o gesto profético do lava-pés (cf. Jo 13), como revelação de um estilo de autoridade que “não veio para ser servida, mas para servir e dar a vida” (Mc 10,45).
A recordação de Jesus servo e pastor como modelo da autoridade faz-nos compreender como é importante, para a construção da comunidade, não renunciar ao confronto e à dialéctica criativa das diferentes funções na comunidade, em nome de uma “democracia acéfala” ou de uma “corresponsabilidade irresponsável”, onde ninguém toma cuidado de ninguém. A comunidade tem necessidade do serviço de discernimento, de coordenação, de orientação e de decisão. E o mesmo Espírito que age nos profetas assiste também, de modo adequado à função, aqueles que exercem tais ministérios. O confronto de perspectivas diferentes na comunidade não deve amedrontar (deve suspeitar-se da demasiada unanimidade!). Se nos deixarmos mover pelo Espírito, o confronto será tempo de respeito, de descoberta e de clarificação e discernimento, para encontrar os caminhos a seguir.
Neste processo, a autoridade profética saberá escutar e promover o confronto, mas também discernir e decidir. Se não o fizer, priva a comunidade de um serviço fundamental para a vida fraterna e para a missão. Deve fazê-lo na procura honesta da vontade de Deus, mas também com a humildade que reconhece os próprios limites e sabe que pode errar. Não decidir para não correr o risco de errar é um erro certo. Aceitar a falibilidade das decisões parece-me muito em sintonia com a profecia. O profeta fala em nome de Deus, mas nunca se coloca no seu lugar. Aceita que a palavra (a decisão) tenha sido procurada no Espírito, mas também que aquilo que pode compreender dos caminhos de Deus é sempre limitado. Isto não cria nele a angústia de poder errar, mas a confiança humilde e alegre de quem continua a escutar, a servir e a rezar cada dia: “dá-me, Senhor, hoje ainda, uma palavra para dizer aos meus irmãos”.
4. O testemunho da comunhão
A profecia orienta-se, sobretudo, para o interior da comunidade crente, que aceita que alguém possa falar em nome de Deus (cf. 1Cor 14,22). Em relação aos de fora, deve-se antes falar de testemunho ou de sinais que fazem reflectir e tornam credível o anúncio feito pela comunidade. Neste testemunho, é importante o sinal individual de fé e de vida de cada crente, mas é-o igualmente o testemunho da comunidade no seu conjunto, dado que o Evangelho não pretende ser um caminho individual de salvação para chegar ao céu, mas uma proposta que implica também a transformação da sociedade e especialmente das relações entre as pessoas. Este estar juntos em nome de Deus, empenhados na transformação do mundo, constitui o grande testemunho da Vida Religiosa. Em seguida, somente em jeito de súmula, gostaria de apresentar algumas dimensões deste testemunho da comunidade religiosa na Igreja e no mundo.
Descrevendo a primeira comunidade de Jerusalém, Lucas comenta como a vida fraterna baseada na escuta da palavra, na oração, no partir do pão e na partilha dos bens, constituía um sinal de credibilidade que provocava a adesão de novos crentes e dava autoridade à palavra dos apóstolos que anunciavam o Senhor Jesus (cf. Act 2,42-47; 4,32-36).
A comunidade é, em si mesma, anúncio da validade do Evangelho para transformar o mundo a partir da reconciliação e do mandamento novo do amor. A fraternidade no interior da comunidade transforma-se em capacidade de acolhimento em relação aos que se sentem atraídos pela curiosidade ou pela procura de um mundo melhor. Além de ser anúncio, a comunidade torna-se, então, caminho onde se aprende a conhecer Cristo e a deixar-se transformar por Ele. Por isso, a vitalidade missionária de uma comunidade estará sempre ligada à qualidade da vida fraterna que ela vive. “ É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).
Para a Vida Religiosa, o desafio da comunhão fraterna é fundamental para compreender a sua missão na Igreja e no mundo. Não fomos chamados como simples força de trabalho, para a evangelização ou para as obras de caridade. Formar a comunidade é a nossa primeira tarefa , que dará sentido e estilo a tudo o que fazemos, assim como a vida dos discípulos com Jesus precede e determina a sua missão.
O envio dos discípulos “dois a dois ” (Mc 6,7) anuncia a referência comunitária de toda a missão, mesmo se alguém se encontrar ocasionalmente sozinho num determinado trabalho. A comunidade, não só é ponto de partida e de chegada da missão, mas é envolvida no seu crescimento, através da participação na identificação e definição do projecto, na sua sustentação e metodologia, de tal modo que se torne claro que ninguém vai em nome próprio, mas que a missão é sempre compromisso de uma comunidade animada pelo Espírito.
O carácter comunitário e o estilo da missão determinam também o seu objectivo. Partindo da experiência da comunidade e trabalhando juntos, os missionários darão sempre um carácter comunitário àquilo que fizerem , valorizando as pessoas e ajudando-as a desenvolver a própria responsabilidade, a encontrar solução e reconciliação para os seus conflitos, a lutar juntos pelo próprio desenvolvimento e pela construção de um mundo mais fraterno.
Pelo facto de ter origem numa variedade de Igrejas particulares, situadas em diferentes contextos culturais e étnicos, os religiosos representam para a Igreja universal uma verdadeira profecia de comunhão, de colaboração e de solidariedade . Pense-se somente nas centenas de milhares de religiosos e religiosas que trabalham fora do próprio ambiente de origem, grande parte deles em comunidades multi-étnicas e multiculturais. Eles dão testemunho da força de comunhão da sua consagração e constituem uma prodigiosa semente de solidariedade e de cooperação entre as diferentes Igrejas locais.
Num mundo globalizado, mas cada vez mais dividido, onde se alarga o fosso entre quem tem muito e a turba imensa de quem não consegue viver, o carácter universal da Vida Religiosa adquire um novo valor. Através da solidariedade, a comunhão fraterna e a colaboração na construção do futuro que procuramos viver nas nossas comunidades, queremos dar um contributo para humanizar a globalização , de modo que possa tornar-se verdadeira oportunidade de humanização, de desenvolvimento, de justiça e de paz.
Segundo a apresentação de Jesus na sinagoga de Nazaré, o primeiro testemunho do Evangelho é o alegre anúncio aos pobres, a libertação dos prisioneiros, o dom da vista aos cegos, o desaparecimento de toda a opressão e a proclamação da graça e da bondade de Deus (cf. Lc 4,16-28). Podemos dizer, com alegria, que as comunidades religiosas deram, ao longo da história, e continuam a dar ainda hoje, um admirável testemunho destes sinais da chegada do Reino de Deus . Eles falam por si e são, para uma multidão de pessoas, gestos de solidariedade, de misericórdia, de gratuidade e de vida, que acalentam a esperança na possibilidade de um mundo novo.
Falando deste testemunho e de profecia, não queremos apresentar-nos como “a alternativa boa ao mundo mau” . Bem conscientes das dificuldades que nós próprios encontramos na construção da fraternidade a nível das nossas comunidades e institutos, das injustiças tantas vezes cometidas no passado e da fragilidade na qual trazemos o tesouro que nos foi confiado, sentimo-nos solidários com o drama da dor, da injustiça, da miséria que encontramos no nosso mundo. Aquilo que podemos dizer é que experimentámos a possibilidade de libertação no Evangelho de Jesus e que estamos dispostos a tomar a nossa parte do peso e da esperança, para a transformação deste mundo, com a força do Espírito.
Deste modo, sentimo-nos na linha dos profetas e de Jesus, que não se retiraram do mundo, com os seus problemas e pecados, nem o condenaram, mas colocaram-se no meio dele, tomando sobre si mesmos o peso e o drama da multidão . Muitas vezes no sofrimento e também na morte, afirmaram sempre a alegria da presença de Deus na sua vida e a esperança certa na possibilidade de transformar o mundo à luz da nova Jerusalém: o dom da vida por amor é a verdadeira profecia.
Conclusão
Para ser profecia no mundo de hoje, a Vida Religiosa não deve fazer uma campanha de marketing, mas ser aquilo que autenticamente é, em fidelidade sempre renovada:
• Afirmação alegre da presença de Cristo ressuscitado na Igreja e no mundo, através do seu Espírito, que continua a chamar homens e mulheres ao seu seguimento, tornando-os disponíveis para escutarem e seguirem a voz do Pai e para estarem solidariamente presentes no nosso mundo;
• Testemunho de comunhão fraterna , tornada possível pela presença do Espírito, que não destrói, mas integra a riqueza da diversidade das pessoas e das culturas, na construção de uma humanidade mais justa, reconciliada e fraterna;
• Anúncio da Boa Nova da misericórdia e do dom da própria vida ao serviço dos irmãos, começando pelos mais pequenos e esquecidos.
Roma, 24 de Maio de 2007
P. José Ornelas Carvalho SCJ
Superior Geral da Congregação dos
Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Conferência proferida na Assembleia da USG
(União dos Superiores Gerais)
(tradução: P. António Tomás Correia, scj)


