A ADORAÇÃO DEVE CONVERTER-SE EM AMOR, EM UNIÃO
28.01.2010
Nesta última conversa nossa sobre a adoração gostaria de deixar esta mensagem como que um eco de tudo o que refletimos durante este ano de 2009 sobre a Eucaristia e Adoração. Não é propriamente uma conclusão porque eu não gostaria de concluir estas reflexões. Sem dúvida é preciso continuar a reflexão. Eu sei que tudo o que refletimos durante este ano é apenas um ponto de partida para que você agora nos seus encontros com o Cristo na Eucaristia esteja um pouco mais preparado/a para deixar que o Senhor lhe diga as coisas mais importantes e melhores, no seu encontro pessoal com Ele. Quero relembrar a visita que Jesus fez aos seus amigos de Bethânia e convidar você a repetir muitas vezes o gesto de Maria: sentar-se aos pés do Mestre e ouvir o que Ele tem a dizer. Quero convidá-lo a reservar cada dia (se for possível) um momento para o seu encontro com o Cristo na Eucaristia.
No dia 10 de março de 2009, o Cardeal Cañizares, da Congregação para o Culto Divino, dizia que “Adorar a Deus é o que muda a vida dos cristãos”. E dizia: “A liturgia é antes de tudo adoração. A Igreja é obra de Deus, é ação de Deus, é reconhecimento do que Deus faz em favor dos homens. E a adoração que a liturgia expressa, sobretudo a Eucaristia, é o reconhecimento de Deus, de que tudo vem dele, de que tudo o que nos pertence deve chegar a Ele”. Precisamente no atual contexto de secularização, em que “se tende a esquecer Deus, a considerá-lo pouco importante para a vida”, acrescentou o Cardeal Cañizares, é oportuno “reafirmar que Deus é o primeiro”. “Isso é o que mudará a vida dos cristãos e da Igreja”, acrescentou. Quando a Igreja esquece que Deus é o centro de tudo, converte-se em uma instituição meramente humana.
Na sexta-feira, 13 de março de 2009, Bento XVI agradeceu à Congregação para o Culto Divino pela sua insistência sobre a necessidade de se aprofundar a reflexão sobre o mistério da Eucaristia, aumentando a consciência dos fiéis e especialmente dos futuros sacerdotes sobre a presença real de Cristo nas espécies eucarísticas.
O pontífice quis também especificar o sentido do termo “adoração”. Lembrava que a palavra grega proskynesis indica um gesto de submissão, o reconhecimento de Deus como nossa verdadeira medida, cuja norma nós aceitamos seguir. Mas, não se trata de uma mera submissão. A palavra latina “ad-oratio”, ao contrário, denota o contato físico, o beijo, o abraço que está implícito na idéia do amor.
“O aspecto da submissão prevê um relacionamento de amor, de união, porque Aquele a quem nos submetemos é AMOR. De fato, na Eucaristia a adoração deve tornar-se união com o Senhor vivo e depois com o seu Corpo Místico”. Bento XVI recordou suas próprias palavras na esplanada de Marienfeld, no dia 25 de agosto de 2005, durante a Jornada Mundial da Juventude de Colônia: “Deus já não está só diante de nós, como o Totalmente Outro. Está dentro de nós, e nós estamos nele. A sua dinâmica penetra-nos e de nós deseja propagar-se aos outros e difundir-se em todo o mundo, para que o seu amor se torne realmente a medida dominante do mundo”. E o Papa continua: “Era nesta perspectiva que eu recordava aos jovens que na Eucaristia se vive a fundamental transformação da violência em amor, da morte em vida, que depois traz consigo as outras transformações. Pão e vinho se convertem em seu Corpo e Sangue. Mas a este ponto, a transformação não deve deter-se, antes, é aqui que deve começar plenamente. O Corpo e o Sangue de Cristo são-nos dados para que nós mesmos, por nossa vez, sejamos transformados”. E nós nos convertemos nele; convertemo-nos em amor a Ele e aos irmãos. Quando vivemos intensamente da vida litúrgica da Igreja, da celebração da Eucaristia e da Adoração, abrimo-nos realmente ao amor de Deus e do próximo.
É preciso, no entanto, que levemos a sério o nosso tempo de encontro com o Senhor na adoração. Adoração não é uma opção, é uma obrigação, não é luxo para desocupados, é uma necessidade. Adorar a Deus é a única coisa que a Igreja pode fazer e que nenhuma outra assembléia pode fazer. Nós, às vezes, pensamos que tudo vai bem quando aparece muita gente em nossas igrejas, em nossas missas, cultos ou shows. Achamos que tudo está bem quando conseguimos tudo o que queremos ou pedimos a Deus. Queremos uma Igreja eficiente, Padres ou Pastores que resolvam todos os nossos problemas, que façam muitos milagres em nome de Deus. Recordo-me muito bem que um dia uma senhora, amiga de muitos anos, veio falar comigo e disse que havia mudado de religião “porque a sua Igreja já não estava mais resolvendo os meus problemas”. Outra me falava dos muitos milagres realizados por seus pastores e perguntava com ar já triunfante: “Na sua Igreja acontecem milagres?”. Claro que na minha Igreja não poderiam acontecer tantos milagres assim. Eu respondi: “Claro, na minha Igreja acontecem milagres todos os dias e a cada momento. Em cada celebração, Cristo se torna presente na Eucaristia. Ele transforma um pouco de pão e de vinho no seu Corpo e Sangue. Ele aparece tão simples e humilde e nós podemos recebê-lo. Muitos outros milagres Ele não precisa fazer porque todos aqueles que o recebem já sabem o que fazer por Ele e pelos irmãos/ãs. E nós nos sentimos enviados aos irmãos para ajudá-los, para servi-los. O grande milagre que o Senhor faz na minha Igreja é despertar para o amor e a fraternidade, para a união”.
Aliás, este é o grande milagre que acontece cada dia em nossas assembléias, em nossas missas e adorações. Cristo vem até nós, nos alimenta, nos fortalece e nos envia pelas estradas do mundo para levar sua mensagem de amor, para falar aos outros o que aprendemos com Ele, para amar a todos os nossos irmãos e ajudá-los em suas necessidades. Por isso, a nossa Igreja não precisa de muitos outros milagres, nem de pregadores que brincam de Deus. A grande esperança do mundo é a Igreja e a única esperança da Igreja é o retorno à adoração. É preciso que todos os pregadores do Evangelho tenham tempo para sentar-se aos pés do Mestre, para poderem ser mestres dos irmãos/ãs. Cada ministério da Igreja deveria ser um subproduto da adoração. Todo e qualquer ministério divorciado da adoração não tem raízes e, portanto, não pode produzir frutos que permaneçam. É preciso ter coragem para deixar de lado alguns brinquedinhos religiosos, espetáculos e pretensos milagres para atrair os incautos e voltar a trabalhar seriamente para o Senhor, anunciar de verdade Jesus Cristo. Certa vez um Pastor perguntava aos seus ouvintes: “O que será necessário para nos motivar a adorar o Senhor? O que terá de acontecer para que desmantelemos nosso esfarrapado showzinho religioso e construamos de novo um altar para o Senhor?”. Sempre costumo dizer que o meu tempo de pregação não pode ser mais longo do que o tempo de oração ou, num linguajar mais direto e menos educado: “Quem fala mais do que lê e reza, costuma falar asneira”.
Por isso, terminando estas nossas conversas sobre a adoração, quero convidá-los a perder muito tempo, muito tempo mesmo com o Senhor, em adoração, em silêncio, escutando o que Ele tem a nos dizer. Somos convidados a reservar todos os dias um tempo para o Senhor. Depois poderemos sair e anunciar o que ouvimos, meditamos e rezamos. E, então todos entenderão o que nós falarmos e continuarão a crer que Deus é nosso Pai e nos ama.
Corupá, 27 de outubro de 09
P. Francisco Sehnem, scj.
E-mail: senheim.sehnem@hotmail.com

